Em tempos de textos formidáveis sobre educação financeira, dicas de especialistas sobre como poupar, e outras fórmulas mágicas, nasce uma derivada do assunto que é a educação financeira para os filhos. E nessa seara, não basta ter conhecimento em finanças; para se falar sobre o assunto, e falar com autoridade, especializações em psicologia infantil e pedagogia, para citar poucas áreas, são cruciais para não se falar mais do mesmo.

Permita-me o leitor contar uma história, a história daqui da minha família e como são as relações com o dinheiro. É a história do vidro de palmito.

Em janeiro de 2019 minha filha (com 9 anos à época), minha esposa e eu decidimos guardar toda moeda de qualquer valor e nota de R$ 2,00 (apenas R$ 2,00) que chegassem até nossas mãos. Usaríamos como cofre um vidro de palmito, desses vidros grandes de venda para o atacado. E combinamos também qual seria o destino das economias, com participação bem marcante da filha: uma viagem para a Disney. Você, leitor com o mínimo de noção sobre valores de viagem, sabe que o plano é no mínimo ambicioso, e isso sendo bastante generoso.

Definir uma meta, mesmo que intangível (e aí os críticos de plantão poderiam dizer que a frustração seria certa) foi no caso do vidro de palmito apenas uma maneira de relembrar uma criança, que sempre que ouvisse o tintilar das moedas, fizesse a conexão mental com o ato de poupar para um fim específico.

O dia de abrir o pote e conferir o valor foi o primeiro dia do ano de 2020. O fato de ser um pote transparente foi propositalmente escolhido, para dar sempre a impressão que o pote enchia à medida que o tempo passava; dava a certeza que fazíamos nosso melhor para buscar atingir o objetivo. Família reunida e as esperanças da viagem foram se dissipando na mesma velocidade em que contávamos o dinheiro. Total acumulado: R$ 366,25.

Antes que um possível choro viesse à tona, parabenizei a equipe. Conseguimos guardar o equivalente a R$ 1,00 por dia, e o fruto do nosso trabalho foi conseguir juntar dinheiro suficiente para pagar quase a renovação de dois passaportes junto à Receita Federal. Rapidamente, minha filha percebeu o quão distante estava do valor de uma viagem (disse para ela que seria por volta de R$ 30.000,00); percebeu o quão difícil é juntar dinheiro para atingir uma meta financeira; percebeu e lembrou-se de algumas vezes que poderia ter guardado mais e não o fez pelo prazer imediato de um sorvete, por exemplo; e lamentou por não ter o dinheiro para pagar a renovação dos três passaportes.

Ela entendeu, creio eu, que quando definimos metas precisamos ser criteriosos; sentiu na pele como é árduo e trabalhoso guardar dinheiro, e para guardar é preciso fazer escolhas; mas o mais legal, ela percebeu que o dinheiro guardado sim será usado para o objetivo traçado, e de que nosso trabalho não foi em vão. Conseguimos juntos criar meta e ter a equipe engajada até o final do prazo, com a transparência que é comum para um vidro de palmito. Resumindo, com a linguagem técnica de consultor financeiro: defina objetivo, crie metas, submetas, realize orçamentos, minimize seus pontos fracos e turbine seus pontos fortes, aproveite as oportunidades, prepare-se para os riscos, crie plano alternativo, mantenha o foco e tenha DISCIPLINA. Sem essa palavrinha, nenhum sonho sairá da sua cabeça para o mundo real.

Ah, e dica (se é que sou abalizado para dar alguma dica), e não só sobre educação financeira, é sobre educação para os filhos: faça as coisas de modo que não se envergonhe dos resultados, e que seu filho tenha vontade em replicar. Faça com que suas atitudes falem tão alto que seus filhos mal consigam ouvir o que você diz.